Daqui pra lua
— Será que os novos astronautas já chegaram na lua? Você tá em contato com eles lá? Quem tá falando com eles? Tem que fazer stories, criar conteúdo!
— Tenho falado com eles. Dado umas dicas, o melhor caminho e tal. Parece que hoje chegam lá. Dá o corrupio e volta.
— Não vão pousar não? Só pra não pagar estacionamento? Do you think the moon is Texas?
— It’s Kentucky.
— Oh shit. I’ll get there by tank.
— I like that old movie that they shot the moon in the eye! Ducking monster! I don’t give a damn.
— Flanela do jeep lunar. Tem esse poema no livro “Amor América”.
FLANELA DO JEEP LUNAR
sou um flanela de jeep lunar
estacionando nas sombras das crateras
cobrando búzios lunares
nas tardes lado oculto
de profundas felicidades
com minha flanela
azul vermelha e branca
estrelas pintadas
da bandeira esfarrapada
danço entre os carros lunares
das rodovias empoeiradas
sou um ser da lua
com minhas chuteiras prateadas
pisando a bola cinza
embalando em dribles pedaladas
venha com seu jeep
deixe as marcas dessas rodas
giant step for a man
um grande salto do flanela lunar
- Domingos Guimaraens— Vaaaaai flanela! É o Flanelaman!
— A flanela é a bandeira americana. Poucos entenderam a crítica. Acharam que era exaltação. Amigo meu poeta brigou comigo no bar. A discussão era essa: tem um flanelinha usando a bandeira dos EUA toda esfarrapada, pedindo um trocado pra estacionar jeep lunar e ele dizia que isso era uma defesa do poderio bélico estadunidense. As pessoas nas mesas em volta ficaram incrédulas.
— Todos com 21 anos discutindo seriamente. E essa discussão era a coisa mais importante da noite! Ontem mesmo devia ter um grupo de poetas de 20 anos discutindo uma frase num poema. Tipo em “Os Detetives Selvagens”. Aliás, nesse feriado vi no YouTube um documentário sobre o Roberto Bolaño. As coisas que ele escrevia eram baseadas na vida dele e dos amigos.
— Você já leu “O País do Carnaval”? É o primeiro romance de Jorge Amado, lançado em 1931, quando tinha 18 anos. Conta a história de Paulo Rigger, um jovem de família rica que volta ao Brasil após anos em Paris e se sente deslocado aqui. Ele se envolve com um grupo de intelectuais insatisfeitos e poetas fracassados em Salvador. Todos se sentem insatisfeitos e buscam um sentido para a existência: no amor, no dinheiro, na política, na vida burguesa ou na religião. O livro explora a busca por identidade e propósito em um Brasil em transformação.
— Uau! Parece algo que aconteceu ontem. E há cinco anos. E há dez anos. A vida é uma repetição da repetição da repetição…
— É o mesmo papo do bar da gente e também de “Os Detetives Selvagens”, de “ Poeta Chileno”...
— A gente nem precisa mais escrever livros. Basta pegar um livro antigo e atualizar.
— Aliás, você viu a plataforma MEC livros? Uma biblioteca digital que libera acesso gratuito de livros no formato digital.
— Vi! Achei massa a iniciativa, mas tem que ler pelo site deles, meio zoado. Podia dar pra baixar o livro pra gente jogar em algum aplicativo pra ler.
— Sim, ainda é estranho. Mas vai melhorar.
— Vai melhorar.
— Já existe um sistema parecido em outros países e o pessoal consegue mandar pro Kindle.
— Vai tudo depender se vão chegar na lua pra resolver isso.
Essa foi uma conversa que tive com meu amigo Domingos Guimaraens pelo WhatsApp em uma manhã normal de segunda-feira. Tomando café e colocando os assuntos em dia, a gente troca ideias sobre notícias ou fofocas antes de encarar o trabalho, cuidar da vida e dos filhos.



