Debaixo d'água
Quando eu era criança, morava perto de um clube onde eu e meus irmãos passávamos praticamente todos os fins de semana. Havia duas piscinas: a infantil e a dos adultos. A infantil era nosso mundo. Rasa, morna, cheia de amigos, gritos e brincadeiras molhadas. Parecia enorme. Até que chegava uma idade em que ela deixava de bastar e vinha a vontade de pular para a piscina dos adultos, desvendar novas profundezas, águas mais densas, raias maiores.
Foi nessa época que ouvi a história de que, na piscina dos adultos, colocavam um produto químico que, caso alguém fizesse xixi, a urina imediatamente virava uma tinta colorida e denunciava o culpado para todo mundo. Acho que foi Rodolfo quem disse isso, um menino mais velho do clube a quem todos respeitávamos por medo ou inveja da sua habilidade de fazer embaixadinhas. Diziam que um garoto de outra cidade tinha sido pego em flagrante quando uma enorme mancha vermelha surgiu debaixo das suas pernas e se espalhou ao redor de todo o seu corpo. Todo mundo viu.
Durante muito tempo, sempre que dava vontade, eu saía correndo da piscina e ia ao banheiro. Morria de medo daquele vexame.
Até que um dia a brincadeira estava boa demais para interromper. Pensei que talvez houvesse um jeito de testar a história.
Soltei só um pouquinho de xixi e olhei para a água para ver se aparecia alguma cor saindo do meu calção. Nada. Mais um pouquinho. Continuei observando. Nenhuma cor. Imaginei que, se aparecesse alguma tinta, bastava bater as pernas rapidamente para espalhá-la antes que alguém percebesse. Então fiz meu xixi como todos sempre fizemos na piscina infantil, aquela sopa de cloro e urina, e continuei brincando com meus amigos, com um sorriso aliviado e uma cara de inocência irretocável.
Lembro de ter feito a mesma coisa nas semanas seguintes e nunca reparei tinta nenhuma. Nunca.
Só muitos anos depois me ocorreu que talvez aquele produto jamais tivesse existido. Talvez fosse apenas uma lenda de clube. Ou uma invenção de adultos cansados de mandar crianças saírem da piscina para ir ao banheiro.
Por muitos anos, a iminência do vexame esteve presente em qualquer banho de piscina. Mas também a sensação de rebeldia ao desafiar aquela regra, e o prazer de corrompê-la e me dar bem.
A infância é cheia dessas fantasias que nos moldam, organizam, amedrontam e fascinam. A vida adulta não é tão diferente, alguns ainda fazem xixi na piscina.




A lenda se espalhou sem nunca termos presenciado
"um menino mais velho do clube a quem todos respeitávamos por medo ou inveja da sua habilidade de fazer embaixadinhas" - gosto da ideia de chamarmos essa pessoa de "embaixador"